
A poucos dias do primeiro domingo do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2026, marcado para 8 de novembro, a pergunta que mobiliza estudantes de todo o Brasil é: qual será o tema da redação? Embora não exista uma maneira de antecipar a escolha da banca, professores de colégios de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais identificam assuntos contemporâneos que merecem atenção e dão orientações para os candidatos nesta reta final.
Entre as apostas dos quatro educadores consultados, três grandes questões se repetem: os impactos da inteligência artificial, os desafios da inclusão de pessoas neurodivergentes e as desigualdades relacionadas às questões ambientais. Saúde mental, envelhecimento populacional, segurança alimentar e transformações nas relações de trabalho também aparecem nas sugestões.
As indicações foram reunidas a partir das avaliações de Cristiane Imperador, coordenadora pedagógica do Ensino Médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo; Cristiane Lopes, coordenadora da área de linguagens do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro; José Ricardo, professor de produção de texto do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte; e Josiane Guedes Sales, professora de redação do Ensino Médio do Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora.
Apesar das diferentes apostas, os especialistas concordam em um ponto: mais importante do que tentar adivinhar o assunto é saber construir uma argumentação consistente e utilizar o repertório cultural de maneira adequada.
Os temas que mais aparecem nas apostas dos professores
1. Inteligência artificial e seus impactos na sociedade
O avanço da inteligência artificial aparece nas sugestões dos quatro educadores, com diferentes possibilidades de abordagem. Cristiane Imperador, do Colégio Espírito Santo, destaca os desafios de utilizar a inteligência artificial como ferramenta de aprendizagem sem comprometer a autoria e a autonomia dos estudantes. A professora também propõe uma discussão sobre os vieses dos sistemas de IA e a invisibilidade de determinados conhecimentos e culturas.
Já Cristiane Lopes, do Colégio Imaculado Coração de Maria, chama a atenção para as consequências éticas e sociais da tecnologia, incluindo transformações no mercado de trabalho e exclusão digital. Em Belo Horizonte, José Ricardo destaca a cidadania digital e o uso ético da inteligência artificial. Josiane Guedes Sales, de Juiz de Fora, também inclui os desafios éticos, sociais e econômicos da tecnologia entre suas apostas.
2. Inclusão de pessoas neurodivergentes
A inclusão educacional de pessoas neurodivergentes também aparece nas sugestões de professores de São Paulo e Minas Gerais. Para Cristiane Imperador, a discussão pode envolver a construção de uma educação capaz de reconhecer diferentes formas de aprender e produzir conhecimento.
José Ricardo amplia a abordagem para os obstáculos enfrentados por pessoas neurodivergentes tanto na educação quanto no mercado de trabalho. Josiane Guedes Sales também destaca os desafios da inclusão de estudantes neurodivergentes ou com necessidades especiais na educação brasileira.
3. Mudanças climáticas, racismo ambiental e desigualdade social
As questões ambientais são outro ponto de convergência entre os especialistas. Cristiane Lopes, do Rio de Janeiro, aponta mudanças climáticas, racismo ambiental e justiça climática como possibilidades, especialmente diante dos efeitos de secas e enchentes sobre populações vulneráveis.
José Ricardo, de Belo Horizonte, também destaca a relação entre eventos climáticos extremos, desigualdade social e direitos humanos. Em Juiz de Fora, Josiane Guedes Sales aposta na persistência do racismo ambiental e em seus impactos sobre comunidades periféricas e tradicionais. A professora também inclui a gestão do lixo eletrônico entre os possíveis assuntos.
Saúde mental, envelhecimento e trabalho também merecem atenção
Além dos temas recorrentes, os professores apresentam outras possibilidades. Cristiane Lopes destaca os desafios do envelhecimento populacional e a economia do cuidado, a saúde mental de jovens e adolescentes na era digital e a segurança alimentar.
José Ricardo aponta a saúde mental e a precarização das novas relações de trabalho, incluindo discussões sobre jornadas, esgotamento profissional e trabalho por aplicativos. O professor também sugere atenção à preservação das línguas e culturas dos povos originários.
Josiane Guedes Sales inclui os impactos do uso excessivo de telas e jogos eletrônicos por crianças e adolescentes e a pressão estética provocada por padrões irreais de beleza. Já Cristiane Imperador apresenta reflexões sobre a cultura da velocidade e seus efeitos sobre a atenção, a importância da inteligência emocional e o chamado letramento de futuros, relacionado à capacidade de imaginar e analisar diferentes possibilidades para o futuro.
Os erros que podem comprometer a nota
Entre os problemas mais comuns nas redações, os educadores destacam a argumentação superficial, o uso inadequado de repertórios e as propostas de intervenção pouco desenvolvidas. Josiane Guedes Sales chama a atenção para erros de ortografia e pontuação, cópia dos textos motivadores e propostas de intervenção genéricas.
Cristiane Lopes alerta para a fuga parcial do tema, quando o estudante aborda o assunto de maneira ampla, mas não desenvolve o recorte solicitado pela banca. A coordenadora também destaca a importância de apresentar os elementos necessários à proposta de intervenção: agente, ação, meio ou modo, efeito ou finalidade e detalhamento.
Para José Ricardo, a construção de uma argumentação consistente é um dos desafios mais complexos da redação. Diferentemente de aspectos estruturais, a capacidade de argumentar exige um processo contínuo de leitura, reflexão e ampliação de conhecimentos.
Embora as apostas despertem curiosidade, os educadores reforçam que a preparação para a redação não deve depender da memorização de modelos prontos. A orientação final é que os estudantes aproveitem os últimos dias para consolidar o aprendizado, revisar os pontos de dificuldade e chegar à prova preparados para interpretar e discutir diferentes questões da sociedade brasileira.
Mín. 24° Máx. 41°