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QUANDO O “NÃO” NÃO DÁ AUDIÊNCIA: PATRIARCADO, CONSENTIMENTO EA INDÚSTRIA QUE LUCRA COM A VIOLAÇÃO

Tratar a acusação de assédio como entretenimento é escolher um lado — o lado da manutenção da violência simbólica.

20/01/2026 às 18h15 Atualizada em 20/01/2026 às 18h26
Por: Redação Fonte: Yasmin Lyra Sousa
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QUANDO O “NÃO” NÃO DÁ AUDIÊNCIA: PATRIARCADO, CONSENTIMENTO EA INDÚSTRIA QUE LUCRA COM A VIOLAÇÃO

O episódio envolveu o participante Pedro no Big Brother Brasil 2026, acusado por um colega de confinamento de tentativa de beijo sem consentimento, não deve ser lido como um desvio individual, um erro pontual ou um mal-entendido afetivo. Ele é a manifestação ordinária de um sistema extraordinariamente bem-sucedido: o patriarcado midiatizado, reciclado em linguagem pop, higienizado pelo entretenimento e protegido por uma cultura que insiste em confundir o desejo masculino com direito natural ao corpo alheio.

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Como já alertou Simone de Beauvoir, "não se nasce mulher: torna-se". O mesmo vale para o agressor simbólico: não se nasce assediador - forma-se, em uma cultura que ensina desde cedo que o corpo feminino é acessório narrativo, cenário emocional e recompensa simbólica. O reality show apenas acelera esse processo, colocando câmeras onde antes havia silêncio.

Do ponto de vista jurídico, a insistência em relativizar esse tipo de conduta é um ataque direto ao próprio Estado de Direito. A legislação brasileira, especialmente após a Lei n° 13.718/2018, não deixa margem para ambiguidade: ato libidinoso sem consentimento é crime. Não importa se houve

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"intenção romântica", se o agressor "não parecia violento", se o ambiente era de festa ou confinamento. Como lembra Silvia Pimentel, jurista e ex-integrante do Comitê da CEDAW da ONU, o consentimento é ausência de resistência, mas presença de vontade. Todo o resto é coerção.

Quando parte do público se apressa em defender o acusado simbólico com frases como "ele só tentou beijar", está reproduzindo exatamente aquilo que Catharine MacKinnon denunciou há décadas: a erotização da dominação. Para MacKinnon, o problema não é apenas o ato isolado, mas o sistema que transforma a violação em linguagem erótica aceitável. O beijo solicitado vira "climão"; a invasão vira "ousadia"; o medo vira "drama".

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A indústria do entretenimento é cúmplice ativa desse processo. bell hooks foi incisivo ao afirmar que o patriarcado capitalista precisa da violência simbólica para se manter, porque seus corpos disciplinares sem necessitarem de força explícita. O reality show, nesse sentido, é um laboratório perfeito: conflitos rendem engajamento, corpos rendem audiência, e o sofrimento feminino é transformado em narrativa consumível.

A romantização do assédio não é falha de interpretação; é projeto. Como aponta Angela Davis, a sociedade aprende a naturalizar a violência quando ela é seletiva. Homens jovens, brancos ou socialmente valorizados recebem o benefício da dúvida. As mulheres que denunciam recebem o peso da suspeita. O mesmo gesto, em corpos diferentes, gera reações radicalmente distintas. Isso não é acaso — é estrutura de poder.

Comparações internacionais deixam isso ainda mais evidente. O escândalo Harvey Weinstein não foi um ponto fora da curva, mas a exposição de uma especialidade. Durante décadas, mulheres denunciaram abusos e foram silenciadas em nome do "talento", da "carreira" e do "gênio". Judith Butler nos ajuda a entender esse mecanismo ao falar de quais vidas são consideradas dignas de luto, de escuta, de proteção. No entretenimento, o corpo feminino relatado é considerado digno de inviolabilidade absoluta — ele é sempre negociável.

Em realidades europeias, como Gran Hermano na Espanha, apenas após denúncias explícitas de abuso sexual e pressão social massiva as emissoras consideraram que o espetáculo havia ultrapassado o limite ético. Até lá, a lógica era a mesma: minimizar, relativizar, editar, seguir o jogo. O capitalismo do entretenimento não corrige seus excessos por consciência — apenas por custo reputacional.

No campo teórico, Rita Segato é talvez uma das vozes mais contundentes para compreender essas características.

Para ela, a violência sexual não é sobre desejo, mas sobre poder e pedagogia da crueldade. Cada ato de invasão ensina algo à sociedade: quem manda, quem pode, quem deve se calar. Quando um episódio desses é tratado como "polêmico", o recado é claro — o corpo da mulher continua sendo território de disputa simbólica.

A ocorrência social ao caso do BBB26 revela uma recusa coletiva em abandonar o mito da masculinidade impulsiva e da feminilidade tolerante. Heleieth Saffioti já denunciou que o patriarcado se sustenta justamente na expectativa de que mulheres administrem violência masculina com paciência, didatismo e silêncio. A vítima precisa ser pedagógica; o agressor, compreendido. Essa assimetria é obscena.

Este texto não pede cautela, pede ruptura. Não pede "debate equilibrado", pede posicionamento. Como lembra Audre Lorde, "não há neutralidade em sistemas de opressão".

Tratar a acusação de assédio como entretenimento é escolher um lado — o lado da manutenção da violência simbólica.

Enquanto o "não" continua sendo visto como detalhe narrativo, enquanto a assinatura para tratado como obstáculos ao romance televisivo, enquanto a dor feminina rende audiência, novos episódios continuam acontecendo. E a pergunta não será "como isso foi possível?", mas "por que fingimos surpresa de novo?"

Yasmin Lyra Sousa, Graduanda em Licenciatura Plena em Ciências Socias.

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